sexta-feira, 24 de abril de 2009

Capitulo Treze - Planos

O silencio tornou a atmosfera entre nós angustiante. Queria que Matt falasse algo. Podia ser uma bobeira qualquer para puxar assunto, servia até um ‘ A lua está perfeita hoje’ como os meninos de filmes faziam para que a garota soltasse um riso e descontraísse a conversa. Mas nada, ele permanecia calado, sem expressão. Eu realmente o machuquei, mas o que ele esperava? Ele havia de entender. Eu acabara de ouvir que vampiros existiam. Eu estava em choque.

- Desculpe. – tomei uma iniciativa.

E funcionou, ele finalmente deu sinal que percebera que eu estava ali. Ele se virou, e olhou em meus olhos. Parecia tão melancólico e diferente do Matt que sempre sorria para mim. Me senti culpada, tentava amenizar a culpa pensando que eu estava em trauma e incapaz de raciocinar uma reação. E ele continuou em silencio me deixando frustrada.

- Entendo Anne, não precisa se desculpar. – sua voz estava longe do tom musical que tinha, estava rouca e sem vida.

Eu sorri para ele, mesmo com meus músculos faciais quase paralisados em meio ao frio. Ele não reagiu, nem um sorriso e nem um esforço para um. Naquele momento, eu queria abraçá-lo, queria que ele percebesse o quanto eu estava arrependida. Porém me faltava coragem. Consegui com esforço, levar minha mão ao seu rosto perfeito. Meus dedos estavam formigando de tanto frio que fazia. Afaguei seu rosto esperando que ele relaxasse.

- Eu por muito tempo odiei o que me tornei. Eu não queria ser assim Anne, eu queria ser um adolescente normal, me preocupando com garotas, e não com guerras entre raças. Naquele momento, que você me olhou aterrorizada, meu pior medo se tornou real. Sempre temi, que a pessoa que eu realmente gostasse, tivesse medo do que sou. Medo do que pudesse fazer a ela. – desabafou ele.

As palavras serviram como estacas em meu peito. Eu o fizera sentir assim. Eu fizera seu pior medo se tornar realidade. Ele me protegeu, e eu o fizera se sentir desta forma. Então ele gostava de mim, mesmo sendo fútil demais para aquele momento, consegui sorrir com esse aspecto.

- Eu não tenho medo de você. – tentei fazer a coisa se amenizar.

- Não tente se enganar Anne. Eu vi do jeito que você me olhou. –sua voz continuava naquele mesmo tom angustiante.

- Eu não tenho medo de você. – afirmei novamente. Pelo visto ele não ia se convencer. Eu havia de provar.

Abaixei o capuz e me aproximei de seu rosto, ele pareceu surpreso com a minha atitude. Eu estava tão perto, que podia ouvir sua respiração, ele estava quase ofegando. Pelo menos ele podia respirar, meu coração estava paralisado. Pensei em recuar, mas tomei coragem. Eu beijei seu rosto suavemente. Ele estremeceu com o contato dos meus lábios em sua pele fria. Me diverti com a situação, e levei meu rosto até seu ouvido, de maneira que meu pescoço ficasse perto de sua boca. Acho que não havia melhor forma de provar que eu não sentia medo.

- Eu não tenho medo. – sussurrei, tentando não rir.

- Você está brincando com o fogo Anne. – disse ele, com a voz musical de volta, parecendo esconder um riso.

Eu recuei com um sorriso no rosto, e ele estava rindo. Seu sorriso perfeito mais uma vez estampado no seu rosto. Me senti mil vezes melhor.

- Agora acredita? – disse sentando novamente ao seu lado.

- Você é tão bobinha. – disse ele rindo e pegando minha mão.

- Se você não queria ser um deles, por que decidiu se transformar? Sam me disse que há uma escolha. - disse sem pensar, talvez me arrependesse por ter voltado ao assunto.

- Não tiveram a chance de me perguntar. -disse ele olhando para o nada.

Decidi ficar calada, esperando que ele continuasse.

- Eu estava perto de minha casa, até então eu não sabia dos meus genes, nem imaginava que era adotado. – ele olhou para mim, esperando que talvez aquilo me afetasse, tentei continuar indiferente – Tive a infelicidade de encontrar um grupo da outra raça.

“Eles estavam falando alto, eles falavam coisas como ‘ele é meu’. A rua estava deserta e não havia ninguém a quem eu pudesse recorrer. Minha rua era cercada por uma pequena floresta, e eu corri em direção a ela na esperança que eles me deixassem em paz. Eles pareciam se divertir com o que estava acontecendo. Aconteceu rápido demais, eu estava escondido quando senti algo me arremessar. Eu estava tonto demais para levantar e tudo foi ficando escuro. “

- Pelo que me contaram, a sorte estava do meu lado. Sam e outros estavam caçando pela aquela área, e me encontraram sendo massacrado pelo outro grupo. Eles lutaram, e o outro grupo que estava em desvantagem fugiu. Sam sentiu meu cheiro e percebeu que eu era um deles. E me transformou ali mesmo.

Realmente ele não tivera opção. Então havia sido Sam que o transformou, ele não tivera a opção de escolher. Seu rosto estava sem vida novamente, mas eu queria lhe fazer uma pergunta, apenas uma.

- Dói? – a pergunta me escapou.

- Não quero mentir para você. A dor é insuportável, durante toda transformação. – disse ele sinceramente.

Eu não queria pensar na possibilidade de ter que virar um deles, isso sim me deixava com medo. Um vento frio tocou meu rosto e eu tremi. Matt percebeu minha reação e logo levantou me puxando delicadamente.

- Vamos Anne. Você deve estar exausta. – seu sorriso estava mais uma vez no rosto.

Levantei e ele segurou minha mão ainda sorrindo. Caminhamos juntos até a casa, eu um urso desajeitado e a reencarnação da beleza.

Sam nos esperava na porta e pegou meu braço assim que cheguei.

- Eu comando a partir de agora. Pode deixá-la. – pelo que me parecia Sam não ia muito com Matt, nem Matt com o Sam. Eu parecia ainda mais idiota agora, no meio dos dois. Matt olhou de cara feia para Sam, e olhou para mim.

- Durma com os anjos, minha Anne. – ele beijou minha testa, e sorriu para mim.

Não podia negar que o ‘minha Anne’ fez meu humor melhorar excessivamente. Matt se juntou um grupo que estava perto da TV.

Sam o seguia com os olhos até chegarmos ao topo da escada. Sua expressão mudou instantaneamente quando olhou para mim.

- Louise vai te dar roupas novas; tome um banho e se troque. Está bem? – ele apontou para a mulher que estava na minha casa, eu não havia reparado sua presença. Ela sorriu para mim e eu retribui.

- Tudo bem Sam. – falei carinhosamente.

Eu ia começar a andar quando Sam me puxou delicadamente e falou tão baixo que quase não consegui entender.

- Não faça mais aquilo com Matt, ele pode perder o controle. – ele parecia com raiva, mas ao mesmo tempo debochado com o que acabara de dizer. Senti o sangue correr para meu rosto.

- Já pedi para não entrar na minha cabeça. – tentei parecer inocente.

- Não foi na sua que vi. Foi na dele. – é ele realmente estava debochando. Ele desceu as escadas rindo provavelmente lendo os xingamentos em minha mente.

- Então vamos. – disse ela me apressando.

Tratei de andar até ela. Louise entrou em uma das primeiras portas do extenso corredor. Meu queixo caiu assim que entrei.

- UAU! – só consegui dizer isso.

Eu não entendia muito de moda, mas podia afirmar que naquele quarto tinha roupa de todos os estilos possíveis e pelo visto não eram roupas baratas. Eram vestidos, blusas, calças, sapatos, muitos sapatos por sinal. Ouvi um risinho abafado.

- Nossa, quanta coisa. – um vestido azul marinho me chamou atenção, fui até ele por curiosidade. O tecido era sem duvida finíssimo, parecia seda, mas ela extremamente macio.

- Gostou deste? – ela estava ao meu lado antes que eu pudesse dar conta.

- É lindo.

- É seu. – disse ela sorrindo.

- Não, não, não posso aceitar. Deve ter custado caro. – mesmo achando perfeito, provavelmente não havia ocasião para usá-lo.

Ela riu musicalmente.

- Caro Anne? Acho que Sam não explicou exatamente o que você é ou tem. – a claro, aquela historia toda passou novamente pela minha cabeça, tinha que admitir que aquilo tudo me incomodava demais. – Tome, eu te levo até o seu quarto. – ela me entregou uma muda de roupa e acenou com a cabeça para a porta.

- Meu quarto?

Ela riu novamente, andando até a porta. Andar ao lado dela, era de certa parte humilhante. Ela parecia desfilar ao invés de andar. Ainda por cima, eu ainda estava desengonçada por parte da quantidade de casaco que vestia.

- Seu quarto. – disse ela abrindo uma das portas no corredor.

Meu quarto? Aquilo tudo era meu quarto? Dava para fazer uma festa lá dentro. Era enorme e extremamente luxuoso. Até lareira tinha. As paredes eram pintadas em vários tons de verde. Fiquei deslumbrada.

- Não vai entrar? – sua voz era extremamente musical.

A temperatura dentro do cômodo estava mais agradável, pude em fim retirar as camadas de proteção.

- Vou deixar você à vontade Anne, qualquer coisa me chame. – ela sorriu docemente.

Antes que eu pudesse responder, ouvi a porta se fechando. Já no banho, pude finalmente por em ordem meus pensamentos de tudo que ocorrera no dia de hoje. Era muita coisa para processar em minha mente.

Minha garganta dava um nó só de lembrar da parte da mentira. Eu odeio mentiras, odeio ser enganada. E imaginar, que todas as palavras ditas a mim desde que me entendo por gente, eram parte de uma mentira. Isso doía muito. Nesse momento eu só queria dormir, só queria descansar e tentar esquecer tudo. Começar uma nova vida seria uma boa escolha? Não sabia se era forte o bastante para um recomeço. E o que seria esse recomeço? Viver no meio de vampiros, com meu irmão mais velho governante deles? A palavra vampiros não havia sido filtrada totalmente pela minha cabeça.

Eu tinha certeza que meus pais, ou melhor, aqueles que eu achei serem meus pais, me procurariam por todo país. Eles colocariam a policia toda a minha procura, e não desistiriam até me encontrar. Disso eu tinha certeza.

Sam me dissera que havia uma escolha, qual seria a minha? A idéia de me tornar igual a Sam, ou Matt me fazia estremecer. Era tudo muito estranho, muito confuso. Precisava esclarecer melhor.

Deitei na cama esperando adormecer rapidamente, mas ali sozinha, na escuridão, me senti mais frágil do que nunca, sozinha sem ninguém que eu conhecesse bastante para confiar. As lagrimas que escorreram, eram reflexo da dor que me tomou por dentro. Abracei um travesseiro procurando um abrigo, me senti um pouco melhor. Procurando um alivio, eu adormeci.

- Eu não admito erros. – mais uma vez, sabia que aquele corpo não era o meu.

- Você estava lá senhor, sabia que a chegada daqueles imundos não era esperada. – o homem a frente tentava se justificar, seu rosto demonstrava desespero.

- Está dizendo que foi minha culpa o fracasso, Eric? – senti o ódio ferver em minhas veias.

- Nunca senhor, nunca. – ele se embolava com as palavras.

- Cale e boca e faça algo de útil. Chame Marcus, agora.

Ele correu em direção à porta. O lugar me lembrava as antigas igrejas do século XVIII, e era decorada com espelhos gigantes em cada parede. A impaciência fez com que andasse de um lado para outro do imenso salão. Ao passar pelos espelhos percebi que a imagem refletida neles, era daquele de quem eu fugia,o meu tio.

A porta se abriu e dois homens adentraram no local. A face de desespero ainda presente no homem que a pouco estava aqui, já o outro homem, era Marcus. Podia afirmar por que ele esteve na fazenda de minha avó naquele dia horripilante.

- O que deseja meu senhor? – Marcus era o oposto do homem ao seu lado. Seu rosto demonstrava calma e frieza ao mesmo tempo.

- Quero que trace um plano, e que desta vez não falhe. Quero-a em minhas mãos o mais rápido possível. – Marcus assentia com a cabeça, cada palavra dita.

- Queres invadir a cede deles em busca da garota? – Marcus falava tranquilamente.

- A garota é um bem precioso, sabes disto. Precisamos recuperá-la antes que Sam descubra seu real valor.

- Como quiser meu senhor. – ele assentiu mais uma vez com a cabeça e se retirou. O outro homem grudado nele como se fosse sua sombra.

Os primeiros raios solares entraram no cômodo me fazendo acordar.

- Você se mexeu a noite inteira Anne. – uma voz musical me fez levantar abruptamente.

- Sam? – a forte luz vinda da janela, me impedia de ver seu rosto.

- Isso mesmo. – quando dei por mim, Sam estava sentado ao meu lado na cama.

Esfreguei o meu rosto tentando acordar.

- Que horas é Sam? – perguntei me espreguiçando.

- Quase onze, Bela Adormecida. – ele riu musicalmente.

- Nossa... – mesmo tendo ido deitar cedo, eu ainda me sentia cansada.

O quarto estava abafado, prendi meu cabelo. Ao passar a mão pelo meu pescoço, senti uma ardência.

- Ai... – reclamei.

- O que ouve Anne? – a preocupação visivelmente na voz dele. Ele chegou mais para perto, me olhando profundamente. Deduzi que ele tentava me ler- Ah. – seu rosto ficou vazio.

- Essa droga de alergia. – passei a mão levemente tentando amenizar a dor.

- Não é alergia Anne. – ele parecia certo com o que dizia.

Esperei que ele continuasse.

- Lembra que eu te falei de alguns sintomas? Então... – ele deixou que eu deduzisse o final.

Então era um dos sintomas. Droga, isso me deixou extremamente irritada. Mas algo se fez mais importante.

- Sam, posso te mostrar uma coisa?

Ele não respondeu, apenas acenou para que eu continuasse.

- Vamos ver se funciona, hum, eu penso e você vê! Está bem?

Ele pareceu confuso. Peguei sua mão e fechei os olhos, tentando me concentrar em pensar em todos os detalhes. Funcionou bem, pensei em todo meu sonho da noite que se passara, cada detalhe, cada fala.

- Como você faz isso? – ele perguntou espantado assim que terminei.

- Sei lá, são sonhos somente não é? – perguntei confusa.

- É a primeira vez que isso acontece Anne? – ele ignorou minha pergunta.

- Não. Na verdade é bem constante.

Ele pareceu transtornado, mas sua face mudou rapidamente parecendo ficar tranqüilo. Perguntei-me se aquilo era uma mascara, para não me preocupar.

- Seu café da manha está aqui. – disse ele apontando para a beira da cama, eu não havia notado a presença da bandeja antes. – Tem também roupas novas no seu armário. Preciso ver Michael urgente, você fica bem Anne?

- Tudo bem Sam. – me preocupou que sua urgência em encontrar Michael, tivesse ligada ao que mostrei a ele.

Levantei num pulo só e comi tudo rapidamente. Meu armário me deixou irritada, não gostava de tanta roupa e a maioria não fazia muito meu estilo. Peguei a mais simples possível e um moletom caso estivesse frio como ontem.

Tomei um banho rápido tentando não ficar especulando sobre o futuro como fizera ontem, havia decidido que o que tiver que ser, será. Dane-se viver no meio de vampiros, Sam me dissera que nada de mal eles fariam a mim, além disso, eu tinha Matt. Parei no espelho do enorme banheiro, para prender meu cabelo para cima. A sensação dele roçando em meu pescoço fazia arder ainda mais. Meu pescoço estava muito irritado e me causava uma sensação desagradável.

Eu já estava no meio do corredor, pensando se teria coragem de descer a escada sozinha. Parecia idiota, mas eu era tímida e com certeza todos olhariam para mim novamente, isso me deixava constrangida.

- Anne. – senti a voz perto de mim e me virei automaticamente.

Era Matt e ele estava mais perto de mim do que imaginei. Pulei para trás com o susto e me arrependi de ter feito isso. Ele me olhou surpreso.

- Desculpe Anne, por favor, não tive a intenção de te assustar. – ele se embolou com as palavras.

- Eu que estava distraída. – ele estava perto de mim novamente e só isso importava. Sorri tentando animá-lo e ele retribuiu com o sorriso que eu tanto gostava.

- E então, ia fazer o que? – seu sorriso ainda presente.

- Hum, tentando tomar coragem para descer. – falei sinceramente.

Ele pegou minha mão delicadamente, sua pele continuava gélida, e me puxou delicadamente em direção a escada. Com ele era mais fácil, como percebi nas outras vezes, tudo era mais fácil perto dele.

- Quer ir lá fora? – disse ele docemente enquanto descíamos as escadas.

Assenti com a cabeça. Eu iria a qualquer lugar com ele. A sala pelo contrario do que imaginei, estava vazia. Bom, quase vazia, um pequeno grupo estava perto da cozinha, conversando em sussurros. Reconheci um deles, era o medico que tentara ontem me atender. Tentei não olhar diretamente para eles, na esperança de que ele não lembrasse da nossa ‘consulta’. Tarde demais.

- Anne. – ele já estava a menos de um metro de mim. Como eles faziam isto? – Seu irmão pediu para que eu verificasse se esta tudo bem com você. Ele me disse que foi uma pancada forte.

Olhei para Matt, esperando que ele me salvasse dessa. Mas ele permanecia calado.

- Olha, agradeço a preocupação. – tentei ser o mais doce possível. – Mas eu to bem. Sem dores nem nada e além do mais eu estou de saída, não é Matt?

- Anne, na verdade, eu achava bom você ser examinada, a pancada foi forte. – não acreditava, era desnecessário tudo isso.

- Sente-se aqui Anne, será rápido, prometo não te alugar por muito tempo. – ele apontou para uma cadeira que estava perto de nós.

Sentei-me irritada, fazendo beicinho. Era tudo muito desnecessário, se eu me sentia bem, para que tanta preocupação? E por que Matt tinha que concordar com essa besteira toda? Bobo. Eu o fuzilava com os olhos.

O medico pediu para que eu abaixasse a cabeça e tocou bem onde eu havia me machucado. Tinha que admitir que me incomodou um pouco, mas nada preocupante. Ele perguntou se sentia dor, eu menti dizendo que não sentia nada.

- Eu acho que foi só a pancada, nada de danos colaterais. Vou te liberar por enquanto Anne, mas qualquer dor, qualquer tontura, me avise está bem? Vou permanecer uns dias aqui mesmo. – disse ele sorrindo.

- Prometo avisar, agora posso ir? – eu ainda estava bem irritada para prestar atenção, só queria sair dali.

Ele assentiu e eu fui me dirigindo à porta, ignorando a mão estendida de Matt. Fiz questão de batê-la o mais forte possível. Mas me arrependi, lá fora estava como a sala ontem. Cheio de vampiros que sempre me olhavam com curiosidade. E bater a porta daquela forma, chamou mais atenção. Corei ao reparar em todos os olhares que vinham em minha direção. Matt saiu da casa, confuso.

- O que houve Anne?

Virei a fim de ficar olho a olho com ele, era infantil o que eu estava fazendo, mas ele conseguira me tirar do serio. Ele riu.

- Ta rindo de que? – minha voz saiu ríspida.

- Você fica ainda mais linda quando fica com raiva. – ele disse docemente me fazendo corar ainda mais. – Envergonhada também.

Droga. Era impossível dar gelo nele. Seu olhar apelativo tinha real efeito em mim.

- Vamos sair daqui, por favor. Não gosto de tantos olhares em mim. –testando mais uma vez meu olhar implorativo.

- Claro Anne, vou te levar em um lugar especial. – um sorriso já brotando no canto de sua boca.

Andamos juntos, no meio de todos que estavam presentes. Procurei Sam, mas ele não estava ali. Provavelmente, ainda estava com Michael. Louise olhava para Matt de cara feia, talvez ela compartilhasse a mesma opinião que Sam. Reconheci Pablo ao seu lado, mexendo no motor de um carro. Matt me levava em direção a floresta que cercava a casa. Grande casa na verdade, olhando por fora e detalhadamente, ela ainda parecia maior. O numero de janelas que ela continha, estava proporcionalmente ligada ao numero de portas do extenso corredor. Percebi que ela não tinha somente dois andares, mas sim quatro. Eu não havia reparado anteriormente.

Não adentramos muito na floresta e de longe reparei aonde Matt queria me levar. Um riso baixo escapou.

- Você só pode está brincando.

- Você precisa ver a vista lá de cima. – ele parecia extremamente entusiasmado.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Capitulo Doze - Mais verdades

- Supondo então que eu sou mesmo sua irmã... – comecei, Sam bufou - Até que parte eu sou semelhante a você?
Ele pareceu entender a que ponto eu queria chegar. Ele se curvou para mais perto de mim, e segurou uma das minhas mãos. Eu ainda estava assustada com tudo que ele estava me falando e sua pele gélida me fez arrepiar, me esforcei e mantive minha mão junto à dele. Tanto ele quanto eu, balançávamos o pé em sinal de ansiedade.
- Até que ponto você gostaria de ser semelhante? – ele me perguntou.
- Me explique. – o desafiei novamente.
Ele apertou mais forte a minha mão e eu esperei que ele me respondesse. Por um breve tempo, o silencio tomou a pequena sala, até que a voz musical de Sam o quebrou.
- É complicado de se explicar, vou tentar resumir, para seu melhor entendimento.
“Filhos de vampiros nascem humanos, porém trazem traços de seus pais no sangue. A certa idade, esses traços começam a se manifestar, por pelo que vamos dizer ‘sintomas’. Geralmente é neste período em que damos ao individuo, o direito de escolher. Entre permanecer humano e envelhecer normalmente, ou ser transformado totalmente. Existe um período, pelo qual esses traços podem se manifestar. Depois de certo tempo, eles ficam adormecidos, e não mais se manifestam”
Então era assim que funcionava, se tinha uma escolha. Meus olhos caíram sobre o relógio, perto da mesa onde estava um computador. Os ponteiros marcavam seis horas em ponto. Assustei-me com a velocidade que o tempo passara. Meus pais deveriam estar preocupados, eu havia de arranjar uma forma de me comunicar com eles.
- Hei Sam, posso te pedir uma única coisa? – tentei ser amigável.
- Claro, Anne.
- Posso fazer uma ligação, uma única ligação. Prometo que talvez ela mude muita coisa. Por favor. – tentei mais uma vez o meu olhar implorativo e fiz beicinho.
- Imagino para quem seja. Tome. – disse Sam me entregando um celular.
Disquei os números o mais rápido que pude, e aguardei que do outro lado da linha alguém atendesse. Não demorou muito para que minha mãe, com uma voz de esperança, atendesse o telefonema.
- Alô? – disse ela chorosa. Respirei fundo e engoli seco antes de responder.
- É a Anne mãe. – minha voz saiu sem vida. Sam na minha frente me olhava pacientemente.
Eu sabia que ela reagiria daquela forma, percebi pelo barulho aos fundos que ela não estava sozinha.
- Anne graças a Deus! Onde você está? Você está bem? Alguém te machucou? – ela se perdia em meio a tantas palavras.
Respirei fundo, contendo as lágrimas, uma pergunta era necessária para que eu encerrasse essa ligação.
- Eu estou bem, não fizeram nada comigo. Por favor, me responde uma pergunta? – tentei ser o mais indiferente o possível, mas por dentro a angustia me tomava.
- Anne, o que está acontecendo? Sua voz está estranha, onde você está Anne? Responda-me, preciso te ver bem. Tem alguém te controlando? Anne?
- Uma pergunta, uma resposta. – disse friamente.
- Fale Anne, você está me assustando.
- Você... – engoli seco ao tentar pronunciar as próximas palavras – Você é minha verdadeira mãe? Ou eu... - os restos das palavras pararam na minha garganta.
No outro lado da linha, só conseguia ouvir a respiração de minha mãe, que se tornava mais intensa a cada segundo. Ouvi a voz do meu pai, ao fundo da ligação perguntando o que estava acontecendo.
- Anne, a gente iria te contar quando fosse a hora certa. – o sussurro de minha mãe, quebrara o silencio.
Meu mundo naquele instante sucumbiu, só consegui fechar o celular e o largar. O barulho dele caindo ao chão, se sobressaiu em meio aos meus gemidos de dor. Escorreguei para o chão, e fiquei ali, me sentindo sozinha como nunca tivera sentido antes. Meus pais, aqueles que por tanto tempo amei, aqueles que me ensinaram a andar de bicicleta, me acompanharam nos momentos difíceis da minha vida, eram parte de uma farsa. Sam havia de todo tempo falado a verdade, e eu acreditei naqueles que mentiram minha vida inteira. Eu não sabia se os odiava por todas as mentiras. Eu não sabia de nada. Eu era uma mentira, minha vida inteira se tornara uma mentira.
Reuni forças para olhar diretamente para Sam. Ele estava falando a verdade, aquele homem na minha frente, era meu irmão. Minha mãe estava enterrada em uma ilha, ela sacrificara sua vida pela minha. Meu pai, provavelmente tivera o mesmo destino.
Neste momento tudo mudara. As lagrimas escorriam sem parar. Abracei meu joelho procurando uma proteção. Encontrei o olhar apreensivo de Sam.
- Desculpe. – Consegui falar em meio a lagrimas.
- Você não tem que se desculpar Anne. A culpa não foi sua. Só quero você bem. – ele se levantou e sentou ao meu lado.
Ele tentou me proteger, e eu o neguei. Imaginei o quanto foi difícil para ele, me olhar e não poder me contar a verdade. Naquele momento, esqueci da historia dos vampiros, de tudo que ele me contara, esqueci dos meus medos. Eu só precisava fazer uma coisa.
- Sam, - consegui dizer em meio aos soluços – Posso fazer uma coisa?
- Não precisa pedir Anne.
E eu me joguei em seus braços e o apertei com todas minhas forças. Ele retribuiu o abraço. Percebi que ele também chorava.
- Te esperei por tanto tempo. – afastamos nossos corpos, e nos olhamos, olho no olho. Pela primeira vez, o olhar de Sam não trazia um sentimento ruim, eu via felicidade em seu olhar.
Ficamos ali por um bom tempo nos olhando, minha mente aos poucos voltando ao normal. Mas por dentro, eu sentia falta de uma parte de mim.
- Você deve estar com fome não é? – disse ele preocupado, quebrando o silencio.
Eu realmente estava faminta, fazia horas que eu não colocava um alimento na boca.
- Pra falar a verdade... - antes mesmo de eu terminar a frase, ele já estava de pé.
- Volto em menos de um minuto Anne. – disse ele sorrindo.
- Não, - disse me levantando – eu vou com você.
Ele pareceu se divertir com isso.
- Por que isso agora?
- Curiosidade. – fui sincera.
Ele gargalhou musicalmente.
- E então vamos? – enxuguei as lagrimas do meu rosto com o casaco que Matt me dera. Senti seu cheiro, e me lembrei de como havia me comportado com ele. Queria me desculpar da maneira que lidei com ele. Matt talvez entendesse que eu não estava em um momento bom, acabara de descobrir que vampiros existiam. E que eu estava numa casa lotada deles.Vampiros? Nossa, isso parecia tão, ok, não havia uma explicação lógica para tudo.
Eu agarrei em seu braço e saímos juntos da sala. Assim como nas outras vezes, ao perceberem a minha presença no local, todos pararam o que estavam fazendo. Olhei com curiosidade para todos os presentes ali. Tentei memorizar cada rosto. Sam me levou para uma porta, embaixo das escadas. Entrando no local, era claro que ali era a cozinha da casa. Era enorme o local, mas parecia pouco usado. Era meio óbvio o porquê.
- E então o que quer comer? – perguntou Sam, amarrando o avental na cintura.
- Qualquer coisa. – disse sentando na bancada perto do fogão.
- Vou fazer, minha especialidade está bem? – disse sorrindo
Assenti com a cabeça. O silencio tomava o local, e assim ficou por um bom tempo, enquanto Sam acrescentava ingrediente e mexia. Eu tinha tantas perguntas a fazer.
- E então, que gosto tem sangue? – disse fazendo uma cara de nojo.
Ele não pareceu surpreso com a pergunta, provavelmente estava dentro da minha cabeça, enquanto eu pensava em como perguntar.
- Sangue animal tem mais graça para nós. – disse ele, mexendo na panela.
- Nada de sangue humano?
- Não para nós. – disse ele me entregando um prato. Parecia apetitoso, aparentava ser macarrão com carne, mas preparado de forma diferente.
- Como assim não para vocês? - disse dando a primeira garfada. Estava realmente delicioso.
- Existe outra coisa que você tem que saber. – disse ele se sentando do outro lado do balcão, de maneira que ficássemos olho a olho novamente.
Droga, mais coisa? Eu já estava bastante confusa com o que ouvira até agora e ainda havia mais coisa? Mas a curiosidade mais uma vez me venceu.
- Não somos os únicos, existe outra raça, semelhante a nossa. A única diferença entre nós é a alimentação. – disse ele devagar.
Consegui entender aonde ele queria chegar. Existia então dois tipos de vampiros, eles que se alimentavam de animal e outros, esses sim se alimentavam de sangue humano. Sam percebeu que eu entendi o que ele quis dizer, e logo me tranqüilizou.
- Não se preocupe com isso Anne, não há lugar mais seguro para você, do que aqui, ao meu lado.
Realmente, eu me sentia segura perto dele. Continuei comendo em silencio e ao terminar, fui em direção a pia com intenção de lavar meu prato como era de costume em minha casa. Ou na minha ex-casa. Eu estava ligando a pia, quando a mão de Sam segurou a minha.
- Você só pode estar de brincadeira não é? – disse ele sorrindo – Deixa esse prato ai. Vamos, você precisa descansar.
- Me deixa lavar o prato Sam. É o mínimo que eu posso fazer. – disse insistindo em ligar a torneira.
- Sente ali Anne, tem algo que você precisa saber. – ele parecia mais severo.
- Mais coisas? – eu estava farta de revelações. Mas talvez fosse melhor saber tudo de uma vez.
- Quando te contei a historia de onde tudo começou. A história de nossos pais. Mencionei que eles eram de mundos diferentes.
“Os mundos que eu me referia eram esses, o de nossa mãe, representa esse que hoje estamos. Todos que estão aqui. O outro mundo são aqueles que eu mencionei se alimentarem de sangue humano. O mundo onde nosso pai fazia parte, o mesmo mundo que aqueles que estiveram em sua casa mais cedo, faz parte.”
Então meu pai sim, ele se alimentava de sangue humano. Um arrepio passou por todo meu corpo ao pensar em quantas pessoas, meu pai poderia ter matado.
- Eu quero chegar a um ponto importante Anne. – continuou Sam. – De manha, você se perguntou o porque eu mandava e desmandava em Matt, o por que eu consegui levá-lo para longe de você.
Acontecera mais cedo, mas eram tantas coisas juntas, que pareceu ter ocorrido a tempos. Eu tinha discutido com Sam, pelo fato de ter tirado Matt de mim. Assenti com a cabeça para que ele continuasse.
- Cada uma dessas raças, tem um governante. Como se fosse um rei, alguém que possa representar todos.
“Aquele homem, nosso tio, é o que governa o outro lado. E quem governa aqui é ...’’
Ele deixou que eu terminasse a frase, que fosse muito óbvio o que ele tentava dizer. O primeiro nome que veio em minha cabeça era Michael, pela forma em que todos o obedeciam.
- Michael? – eu não podia afirmar ao certo.
Ele olhou frustrado para mim, então a resposta era tão obvia? Tentei raciocinar melhor, mas somente Michael me parecia alguém que comandasse aquele lugar.
- Não está tão claro Anne? – continuou ele, seu rosto mostrava que eu havia deixado algo passar – Se o trono um dia fora de nossos avos, pela lei de sucessão...
A resposta veio em minha mente instantaneamente e eu me senti extremamente burra em não ter percebido antes. Era Sam o governante deste mundo. Então...
- Ou... Ou... Ou. – não consegui por em ordem meus pensamentos para expressa-los.
Ele parecia tentar me ler, agradeci por sua habilidade, eu com certeza não ia conseguir pronunciar o que pensava. Ele assentiu com a cabeça, provavelmente esperando uma reação histérica de minha parte. Eu Anne, princesa (ao que me parecia), de um bando de vampiros.
- Nossa mais alguma coisa a declarar? Eu to falando serio, se tem mais alguma coisa a me contar, diga agora, prefiro ouvir tudo de uma vez. – disse me embolando com as palavras.
- Por hora é isso Anne.
No momento em que ele terminou de falar, ouvi um barulho, vindo da porta de entrada da cozinha. Num movimento rápido, Pablo, o vampiro grandalhão e loiro estava ao lado de Sam me olhando com curiosidade.
- Recado dado, pode se retirar. – disse Sam grosseiramente.
Pablo não havia dito uma palavra se quer, e o recado já estava dado. Ri com essa situação, teria que me acostumar em ter um irmão leitor de mentes por perto.
- Não. – disse Sam aleatoriamente, olhando para Pablo.
- É com ela com quem vou falar. – ele rebateu.
Ele se virou e ficou cara a cara comigo, Sam bufou e disse algo que não compreendi.
- Acho que tem alguém lá fora, que precisa de companhia. – disse ele docemente.
Não entendi ao certo o que ele quis dizer. Levantei sem pensar, eu não era muito boa em controlar minha curiosidade. Olhei em direção a porta, esperando que Sam me autoriza-se a ir. Era engraçado a forma que me tornei dependente dele em pouco tempo, a cada segundo, a sensação de conhecê-lo a minha vida toda se tornava maior, eu não precisava de nenhum exame que comprovasse nosso parentesco, meu coração já afirmava sua veracidade.
- É perigoso. – disse Sam.
- Qual é Sam? Acha mesmo que eles vão tentar alguma coisa com tantos de nós aqui? – disse Pablo, tentando convencê-lo.
Eu estava curiosa, queria saber quem me esperava.
- Pelo menos até a porta. – cedeu Sam. Um sorriso de satisfação tomou conta do rosto de Pablo.
Eu me agarrei a ele, e saímos juntos da cozinha. Pablo estava logo atrás de nós. Sam me levou até a porta e abriu-a.
A lua já tomava o céu que se tornou escuridão. As estrelas pareciam formar um cordão de brilhantes no breu. Sentado em um banco, ao lado do casarão estava Matt. Mesmo de longe, percebi que sua beleza se tornara mais intensa a luz da lua. Vacilei ao dar o primeiro passo, a temperatura, no lado de fora estava extremamente gélida, o vento frio tocou o meu rosto e estremeci. Olhei para Sam que já havia retirado seu casaco e sinalizava para que eu o pegasse.
- Mas e você? – perguntei antes de pegar.
Ele apenas riu, e colocou o casaco em minhas mãos. Senti-me extremamente quente e confortável ao vesti-lo. Ele possuía o mesmo cheiro que havia no agasalho que Matt me dera. Puxei o capuz para proteger minhas orelhas do frio. Fui andando desajeitada até Matt, que olhava profundamente em direção a floresta que cercava o local. Eu deveria estar completamente idiota, parecendo um urso com tantas camadas de proteção.
Ele pareceu indiferente a minha chegada, continuou olhando pra onde olhava. Nem sequer desviou o olhar para mim. Ele parecia realmente mal com que eu havia dito. Sentei ao lado dele, esperando que dissesse alguma coisa.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Capitulo Onze - Raça

Os segundos se passavam, e nada da resposta. Senti que por algum tempo Matt fez menção de me contar o que queria saber, mas ele sacudia a cabeça me deixando frustrada. Eu olhava em seus olhos procurando respostas, só conseguia ver angustia. Eu não gostava de vê-lo daquela forma, mesmo o conhecendo há tão pouco tempo eu sentia algo por ele. Não conseguia me afastar. Eu fiz um movimento arriscado e coloquei minha mão em seu rosto. Sua pele, gélida como sempre, parecia veludo.
Ele se aproximou lentamente de mim, e eu fiz o mesmo. Nossos corpos estavam tão próximos que sentia o frio que ele irradiava. Meu coração acelerou de tal forma que parecia sair do lugar onde sempre esteve. Seus lábios estavam mais próximos aos meus do que poderia imaginar, sentia seu hálito frio e doce. Fechei meus olhos esperando alguma reação da parte dele. Ouvi um bip abafado de um celular e automaticamente abri meus olhos. Matt já estava do outro lado do quarto atendendo o telefonema.
Por um instante fiquei frustrada e cruzei meus braços infantilmente. Reparei que era inútil essa reação e me concentrei em decifrar o que ele estava falando. As palavras saiam baixas e ele parecia tentar esconder o que estava falando.
- Matt Rider.
- Não a vejo há dois dias senhor. – ele sussurrava.
- Não atendi ligação alguma.
- Prometo que ligarei. - ele batia o pé em sinal de ansiedade.
Ele desligou o celular e seu rosto se tornara uma face obscura. Como hoje, em minha casa, senti medo dele. Ele correu em minha direção e me levantou gentilmente da cama.
- Anne, precisamos voltar para o quarto do Sam. Preciso falar com Michael. Está tudo bem? Ou prefere ficar aqui?
Eu não iria conseguir ficar naquele lugar sozinha. Sacudi a cabeça e ele ofereceu o braço para que eu segurasse. Apertei-o com todas minhas forças e o segui, sendo guiada até o quarto onde Sam estava.
Antes mesmo que Matt pudesse girar a maçaneta, Sam estava na porta, lançando a Matt um olhar desaprovador.
- Você anda bem espertinho não é? Não consegue fazer tudo certo, por que é muito complicado? – Sam acusava Matt.
Percebi que Matt se conteve em responder as acusações de Sam e recuou me empurrando de leve para suas costas. Enfim, o olhar de Sam caiu sobre mim, e ele me olhava tentando entender alguma coisa. Talvez ele estivesse tentando ler minha mente, como ele parecia fazer. Sam passou a olhar para Matt e era com ódio. Por um segundo, jurei que Sam avançava sobre Matt, mas quando voltei a olhar para ele, a mulher e o homem que estavam em minha casa mais cedo, seguravam Sam pelos braços e o impediam de machucar Matt.
- Você, você... Como faz isso sem autorização, hein moleque? – Sam cuspia as palavras.
Não conseguia ver o rosto de Matt para saber sua reação. Esperei que ele se defendesse, mas ele permanecia calado. Michael apareceu por trás da porta, e olhou severamente para Sam, que parecia mais furioso a cada segundo que se passava. Michael ordenou que todos entrassem, porém ninguém se movimentou.
- Querem que eu repita? Sem escândalos no corredor. Resolvemos lá dentro, agora. – disse ele em voz severa.
Dessa vez, obedeceram. O homem e a mulher soltaram aos poucos Sam, que ainda olhava para Matt com ódio. Os dois deixaram Sam entrar e em seguida formaram uma barreira entre ele e Matt. Michael estava na porta, esperando uma reação de nossa parte. Matt se virou olhando nos meus olhos. Meu coração parou por alguns instantes olhando sua beleza estonteante.
- Anne, fique perto de mim, está bem? – ele me pediu, fazendo seu olhar implorativo que nunca falhava.
Assenti e ele pegou minha mão, entrelaçando com a dele. Entramos juntos no quarto, sobre o olhar de todos que estavam ali. Sam estava sentado em uma poltrona, perto da cama, com o homem e a mulher cada um de um lado, como guarda costas. Nos sentamos na cama, um bem próximo do outro, como Matt me pedira. Apertei de leve sua mão, e ele me deu um meio sorriso.
- Agora com calma, um dos dois me explique o que aconteceu. – Michael disse olhando para os dois.
Matt começou calmamente.
- Me ligaram da casa da Anne. A policia já está lá. Eles acharam o celular dela, e a ultima ligação foi para mim. Eles acharam que eu poderia saber de alguma coisa.
Meu coração acelerou. Então já sabiam do meu sumiço e provavelmente meus pais já estavam de fato, a caminho de casa, preocupados comigo. Soltei minha mão, que ainda estava com a de Matt, e a levei ao rosto para esconder as lagrimas que caiam. Matt me abraçou, me pedindo para ficar calma. Enxuguei minhas lagrimas na manga do agasalho e voltei a olhar para todos, segurando ao máximos as lagrimas que lutavam em cair. Matt pegou minha mão novamente.
- Tem certeza que foi só isso que aconteceu moleque? Você não disse nada que deveria ter ficado calado? – acusou Sam.
- Eu não disse nada. Você sabe disso. – Matt se defendeu.
Sam olhou para mim de relance e depois para Michael.
- Matt, fez o grande favor de falar para Anne, da minha... Habilidade.
Entendi finalmente o porquê de tanta irritação.
- Ele não me disse nada. – defendi Matt. - Eu deduzi. Não sou tola, nem alienada. Você sempre fala coisas que eu simplesmente pensei.
Todos olharam pra mim quando terminei de falar.
- Os policiais, por hora, não são um problema. Temos que colocar prioridades na nossa missão protegeremos Anne com nossas próprias almas. – Michael falava tranquilamente. Eu não entendia o porquê de tanta devoção.
- Então você confirma? – perguntei para Sam, evitando olhar em seus olhos. – O que eu deduzi?
Mesmo sabendo que Matt deixou a entender que eu estava certa, queria ouvir a verdade vinda da boca de Sam talvez fizesse a coisa parecer mais normal, ainda achava toda uma loucura essa idéia de ‘ler mentes’
- Prefiro te explicar a coisa toda. – disse ele olhando para Michael, que assentiu com a cabeça.
Os outros começaram a se retirar do quarto, restando somente eu, Sam e Matt. Cheguei para mais perto de Matt, eu tinha a leve impressão, que o que eu ouviria a seguir, mudaria todo o rumo da história.
Sam se levantou e andou em minha direção, pegou minha mão e fez menção que eu me levantasse. Olhei para Matt, preocupada, mas ele fez um gesto para que eu me levantasse. Percebi, que Sam me passava a mesma sensação de segurança transmitida por Matt. Mesmo que eu tivesse me desentendido vezes o suficiente com ele em pouco tempo, a proteção que ele me passava, fez com que eu sentisse um pouco mais de simpatia por ele. Matt ficara no quarto, enquanto eu e Sam andávamos pelo extenso corredor. Achei que surtaria sem Matt do meu lado, mas me pareceu tão normal estar ali, com meu suposto irmão. Essa percepção me fez sorrir.
- O que houve? – perguntou Sam, curioso.
- Hm, eu e... Você aqui. Parece tão normal, me sinto segura perto de ti. Como se o que você me contou fosse realmente a minha historia. – respondi sinceramente.
Ele parou no corredor e afagou meu rosto. Reparei que uma lagrima escorreu por seu rosto antes de recomeçarmos a andar. Ele me puxou para perto das escadas e eu parei. Não queria descer para aquela sala movimentada, era muita gente desconhecida.
- Tudo bem, eles não vão te machucar. – disse Sam, com um meio sorriso no rosto.
Pelo visto, ele entrara mais uma vez na minha mente. Eu não gostava muito desta situação, era complicado ter alguém na minha cabeça sempre.
- Posso te pedir uma coisa? – vacilei entre um degrau e outro.
- Fale, mas eu imagino.
- Dá pra ficar fora da minha cabeça. É serio, posso pensar coisas que possa te machucar. – pedi sabendo o quanto era difícil controlar meus pensamentos.
- Tentarei evitar. Com você é mais fácil. – seu sorriso aumentou fazendo seu rosto ficar extremamente estonteante.
Não entendi o que ele quis dizer, mas permaneci em silencio assim que chegamos à sala lotada. Parecia que mais gente havia chegado ao local e mais uma vez todos pararam o que estavam fazendo para olhar em direção a mim. Michael também estava na sala, no canto norte, rodeado de pessoas, inclusive o casal que estivera em minha casa. O homem alto e loiro acenou rapidamente para mim, o ato não passou despercebido pela mulher que estava do seu lado, reparei que ela dera uma cotovelada nas costas dele. Sam passou comigo por entre todos que estavam ali presentes me levando para uma porta do outro lado da sala.
- Hei Pablo, evitem barulho, preciso de silencio. – Sam gritou para o grupo em volta de Michael, o homem loiro assentiu com a cabeça saindo do lugar onde estava.
Paramos em frente à porta e Sam a abriu, esperando que eu entrasse primeiro. A sala tinha paredes claras e moveis brancos, talvez o motivo pelo qual Sam me trouxera ali era porque a sala passava um ar de tranqüilidade. Isso me fez temer mais ainda o que ouviria a seguir.
- Sente ali Anne. – disse Sam apontando pra uma poltrona perto da janela.
Fui andando até lá e olhei para a janela. A vista dava pra uma montanha, e uma clareira lotada de flores violetas. Fiquei impressionada com a beleza do local. Sentei-me no sofá e fiquei olhando para Sam, ele levantou e foi em direção a janela, fechando à persiana.
- Você é como se fosse um radio fora de sintonia – disse ele, ainda perto da janela.
- Como? – disse me virando para ele. Não vi sentido nas palavras que ele acabara de dizer.
- Eu te disse que era mais fácil não te ler. Você perguntou o por que. – disse ele se explicando.
- Ah. – então era por isso, eu era um radio sem sintonia.
Ele puxou um pufe e sentou na minha frente.
- Antes de tudo Anne, quero que me prometa uma coisa. – pediu ele.
Assenti com a cabeça, e esperei que ele continuasse.
- Tudo o que você vai ouvir, quero que, por favor. Ouça de cabeça aberta. Não leve em conta nada que tenha ouvido em toda sua vida. Prometa-me.
- Eu prometo Sam. – tentei parecer o mais indiferente o possível, mesmo que tudo que ele tenha dito havia me deixado mais tenebrosa.
- Então Anne – ele fez uma pausa, parecendo procurar palavras para começar- pelo que percebi você já reparou na semelhança entre todos os presentes aqui.
Assenti novamente com a cabeça. Foi a primeira coisa que reparei ao entrar neste local. A beleza estonteante, os olhos verdes claro, a pele pálida e gélida, levando em consideração o toque de Matt e Sam.
- As semelhanças vão além de nossa aparência. Fazemos todos, parte de uma raça, desconhecida pela maioria.
A palavra ‘raça’ me fez sentir calafrios, então eles eram diferentes de minha raça? Não consegui entender o que ele tentava dizer. Esperei que continuasse.
- Na verdade, você tem uma idéia de boa parte do que somos. Mas uma idéia errada, mitos e mais mitos fazem de tudo o que vocês pensam que somos um erro.
“Não somos afetados pelo alho, nem pelo sol, nem pela água benta. Não dormimos em caixões, não viramos morcegos e não necessariamente bebemos sangue.”
Eu ouvi as palavras dele lentamente, tentando entendê-las, mesmo sabendo do que se tratava. Meu coração acelerou de tal forma que tudo começou a girar em minha volta. As palavras dele eram repetidas varias e varias vezes em minha mente, mas eu não conseguia raciocinar sobre elas. Vampiros era isso que ele queria me dizer, impossível. Então de anjos não havia nada neles, eles eram monstros.
Mesmo tendo prometido a ele, não conseguir me conter. Minhas pernas não pareciam responder aos meus comandos, mas mesmo assim consegui levantar.
- Impossível. – gritei em meio a lagrimas, que resolveram aparecer no momento errado.
- Não Anne, por favor, me escute. Não é do jeito que você está pensando, você me prometeu.
- Não, me deixa sair deste lugar. Agora, Agora. – eu gritava sem pensar. Eu não queria ficar mais ali, depois disso. Eu tinha medo de ficar em meio a monstros. Eu não estava raciocinando direito. Eu estava desnorteada, optei por correr até a porta. Sabia que ele não deixaria sair daquele lugar, se eu fugisse, talvez funcionasse.
Fui o mais rápido que pude e girei a maçaneta. Eu não esperava que o homem loiro, que a pouco Sam chamara de Pablo, e Matt estarem em frente à porta. Não fui rápida o bastante para conseguir passar por entre eles, o braço de Matt me segurou.
- Me solta, agora. – eu me debatia em vão.
- Calma Anne, não vou te soltar se continuar neste estado. – disse Matt calmamente.
- Me solta agora, me deixa sair daqui. Não quero ficar no meio de vocês, quero meus pais, minha casa. – eu não iria conseguir me acalmar facilmente.
- Solta ela. – a voz de Sam estava chorosa.
Matt vacilou em obedecer, ele foi me soltando aos poucos e por fim fiquei livre. Olhei em seus olhos, mas desta vez, ao invés de fascinação, eu senti medo de Matt. Eu teria que decidir o que fazer. Fugir dali e tentar esquecer tudo, ou continuar aqui e continuar a ouvir o que Sam queria que eu escutasse.
Mesmo contrariando o que eu sentia naquele momento, recuei novamente para dentro da sala.
- Eu quero ouvir tudo, tudo mesmo. E quero provas, de tudo o que for dito. – minha voz saiu severa, fiquei com medo de me arrepender do que estava fazendo, mas algo dentro de mim me fazia querer continuar ali.
Sam assentiu e desviou o olhar, sentando-se novamente no pufe. Antes de voltar a me sentar, olhei para Matt mais uma vez. Em vez de encontrar aquele sorriso perfeito que sempre estava presente em sua face, encontrei agonia e dor. Ele percebeu meu olhar a ele, e veio em minha direção, com um dos braços estendidos.
Mesmo querendo abraçá-lo, o que eu acabara de ouvir me deixou assustada. Afastei-me dele, empurrando seu braço.
- Anne... – ele sussurrou meu nome, e foi recuando lentamente. Seu olhar ainda estava preso em mim, antes de se virar.
Eu estava confusa demais pra tentar concertar o que acabara de fazer. Arrastei meu pé em direção a poltrona que a pouco ouvi a história mais absurda o possível. Sentei-me esperando que Sam recomeçasse tudo, ouvi um estalo da porta sendo fechada.
- Eu imaginei que você reagiria assim. E Anne, por mais que você esteja confusa, uma coisa quero que esteja claro para você, nunca nenhum de nós vai te machucar. Nunca, entendeu?
- Entendi. – eu estava mais calma, consegui dar um meio sorriso para Sam. Ele retribuiu automaticamente- E então o que tem para me contar?
- O que quer saber, fica melhor assim. – ele me olhou, podia ver que seus olhos agora, estavam mais leves, talvez me contar esse segredo, talvez fosse aliviar boa parte do seu fardo.
Procurei as perguntas certas em minha mente.
- Você me disse, há pouco... Que vocês, não... Necessariamente bebem sangue. – tentei formular uma pergunta certa, mas não conseguia. Meu raciocínio ainda permanecia lento.
Ele pareceu entender o que eu estava tentando perguntar.
- Nós podemos optar, entre a comida normal, a que vocês humanos comem. Ou sangue.
Estremeci ao ouvir essas palavras. Ele percebeu.
- Já disse que não precisa ter medo, nós...
- Nunca me machucarão. – completei a frase.
Um silêncio constrangedor baixou no local. Eu estava fazendo as minhas perguntas e Sam as esperando.
- E as presas? – disse por fim, gesticulando com a mão, imitando-as.
Ele olhou debochadamente para mim, provavelmente por parte do gesto.
- Mito. – disse ele, formando um sorriso no rosto.
- Prove. – o desafiei.
Ele pareceu se divertir. Sam chegou para frente, de modo que ficasse a um palmo de mim. Meu rosto estava perto o suficiente para que conseguisse ver todos os detalhes. Ele sorriu divertido e me mostrou todos os dentes. Realmente, não havia nada de incomum neles, nem uma ponta mais afiada.
Ele esperava que eu continuasse com o interrogatório. Uma pergunta surgiu em minha mente, se de fato, eu fosse irmã de Sam, a que ponto nossos genes eram iguais.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Capitulo Dez - Subentendido

O que mais me intrigava, era o que eu estava fazendo ali. Por que esse mal entendido havia ocorrido comigo. Nessa altura, a polícia já devia ter revistado minha casa toda e avisado meus pais sobre a invasão que ocorrera. Eles estariam indo a toda velocidade para casa, e suas mentes voltadas para mim, se eu estaria bem. Não era de o meu feitio desobedecer a ordens, principalmente a que eu mais ouvi durante minha infância ‘’ Não fale com estranhos ‘’, dessa vez eu não só desobedeci, como também fui parar numa casa lotada deles ao lado de um homem que dizia ser meu irmão e me contara uma historia sem fundamento, na verdade tinha um fundamento, se eu fosse adotada ou algo do tipo. Eu tinha mãe, pai. Uma família. E possivelmente a morte de minha avó foi conseqüência deste mesmo engano.
- Anne, você não pode sair desta casa. Você viu o que aconteceu hoje, se a gente não tivesse chegado a tempo, você estaria...
- Morta. – completei a frase automaticamente
- Não Anne, você poderia... – mais uma vez Sam deixou sua frase como uma incógnita.
Olhei de cara feia para ele, e ia reclamar dessa insistência em me fazer ficar confusa, mas Michael continuou a falar.
- Anne, eu estou falando serio, você precisa entender algumas coisas. – nesse momento Sam e Matt viraram a cabeça instantaneamente para Michael, seus olhos arderam em ansiedade- As pessoas que te procuram, não são tão comuns, elas são... Excepcionalmente fortes. Aqui você fica mais protegida, aqui que você deverá ficar.
- Eu tenho outra idéia, - me levantei da cama, estava ficando realmente irritada – vou pra minha casa e ligo pra policia, eles vigiam a minha casa e tudo fica bem.
Antes que pudesse dar mais um passo, Sam estava na minha frente, me obrigando a recuar de novo para a cama. Ele me olhava severamente, mas sua expressão mudou imediatamente e ele começou a rir.
- Você ta rindo de que? – disse cuspindo as palavras.
- Como se um bando de policiais fosse o suficiente para deter ele.
Michael lançou a Sam um olhar o repreendendo. Sam se fez indiferente. Matt ainda ao meu lado, olhava para Michael sem desviar. Ele estava ansioso e não conseguia esconder isso. O silencio tomou o local.
- Preciso de explicações, não vou ficar aqui por nada. Meus pais devem estar preocupados, desesperados para falar a verdade.
Sam riu amargurado e mais uma vez, ele conseguiu me deixar com raiva. Ele tinha que ser tão debochado?
- Vou ter que contar tudo de novo Anne? - disse Sam, me olhando.
Eu não agüentei, ele estava me tirando do serio, ele havia de entender que eu não era a irmã dele, estava longe disso. Levantei e fui em direção a ele, mesmo com a cabeça ainda latejando. Antes que pudesse chegar a ele, Matt já estava do meu lado me reprimindo. Mas minha boca estava livre para falar o que eu quisesse. As palavras saiam rápido demais, sem freios.
- Eu não sou sua irmã, eu não tenho nada com você. Espero que você entenda isso. Não adianta você falar nada.
Ele revidou, tentando se explicar. Procurando justificativas para suas afirmações.
- Anne, acho que você que devera entender. Não há um mal entendido, você é minha irmã. Não temos como se enganar.- não era a primeira vez que eu ouvia isso.
Em um movimento rápido ele me puxou pelo braço até uma cômoda no outro lado do quarto. Matt tentou vir junto, mas Michael o puxou para perto. Sam retirou da primeira gaveta uma caixa de veludo vinho bordado com dourado. Sam a pegou delicadamente e me puxou para a cama, dessa vez sendo mais sutil. Ele se sentou e esperou que eu fizesse o mesmo. Mesmo contrariada, me sentei, esperando ele abrir a caixa, para ver o que ela continha.
Ele a abriu e pude ver que seu conteúdo, era feito de fotos e papeis de carta. As fotos tinham aspecto de antigo e a cor estava desbotando. Ele me entregou uma delas. Era de uma família, e pelo contexto de tudo, era a família que Sam me contara a historia. Eram todos parecidos, assim como todos dessa casa. Todos eram morenos, até o bebe mais novo. Estavam todos sorridentes. Meus olhos então pousaram sobre a figura materna da foto. Era estupendamente bela, assim como Sam me descrevera. E notei a semelhança. Mesmo sendo perfeitamente linda. Suas feições eram quase idênticas a minha. Seu nariz, boca, até mesmo o cabelo e o jeito que era preso atrás das orelhas.
Fiquei boquiaberta. Se eu não estivesse tão certa de que tudo era um erro, eu poderia afirmar que ela era sim minha mãe, por toda a semelhança. Comecei a ficar confusa e me perguntei até que ponto Sam falara a verdade.
Os três olhavam para mim esperando uma reação, contudo nada conseguir dizer. Matt conseguiu se desviar dos braços de Michael e se agachou na minha frente. Senti algo quente escorrer por meu rosto, e tive a consciência que eram lagrimas novamente. Eu só queria um lugar seguro naquele momento, meu coração se tornara um imenso vazio. Sem pensar eu me joguei nos braços de Matt e o abracei com todas minhas forças. Enterrei meu rosto em seu pescoço, não queria mais ouvir nada, nem ver nada. Ele tentava me acalmar e me levantou sem esforço nenhum para me colocar na cama novamente, eu o agarrei mais fortemente.
Ele pareceu entender o recado e pediu para que os outros saíssem dali. Porém Sam se recusou.
- Não vou deixar ela sozinha com você.
Fiz um grande esforço e me virei para olhar pra ele, me soltando de Matt.
- Por favor, eu preciso pensar.
Neste mesmo instante, alguém bateu na porta, e Michael já estava abrindo-a. Na soleira da porta, se encontrava um homem que aparentemente era o medico que Michael falara. Ele, assim como todos deste lugar, era extremamente bonito.
Ele foi diretamente a mim. Puxei Matt para que ficasse mais perto. Não queria nada agora a não ser ficar sozinha ali. O medico fez menção de abrir a maleta que ele carregava, mas eu olhei suplicando para Matt me tirar dali. Ele entendeu e me puxou para suas costas.
- Depois ela vai ser examinada, deixa ela ficar quieta comigo. Ela não quer ver ninguém.
Ele pareceu tirar as palavras de minha boca e eu afirmei com a cabeça. O medico e Michael se entreolharam.
- Leve ela pra seu quarto, preciso falar com Sam.
Sam olhou com curiosidade para Michael, e voltou a olhar para mim. Ele abaixou a cabeça logo em seguida. Matt me colocou em sua frente e me levou em direção à porta. O corredor estava vazio, e um vento frio passou por ele. Me encolhi e me aconcheguei a Matt. Ele me puxou para uma porta, semelhante a todas outras. O quarto era visivelmente menor do que o que Sam me levara. Reparei que a janela, tinha vista pra uma floresta linda. Ele me puxou de leve e me levou para a cama. Em um movimento rápido, ele se dirigiu ao armário e me trouxe um agasalho.
Ele entregou em minhas mãos e sorriu. Eu me sentia tão protegida com ele. Coloquei o casaco e no mesmo instante, um cheiro doce e agradável me envolveu. Apoiei minha cabeça na cabeceira da cama. Ele olhava para mim com gentileza, um meio sorriso ainda ficou em seu rosto. Eu ainda precisava de respostas, e não agüentaria esperar.
- Matt – seu sorriso aumentou ao ouvir seu nome – posso fazer umas perguntas? – perguntei gentilmente.
- Não garanto respostas, mas sim Anne, pode fazer o que quiser.
Formulei rapidamente, as perguntas que as respostas eram prioridade.
- O Sam, ele... Ele, - gaguejei ao tentar pronunciar o que se seguia, talvez parecesse idiota demais – consegue ler mentes, ou algo do tipo, não é? – consegui falar enfim.
Esperei uma reação debochada da parte dele, mas ele me olhava com curiosidade.
- Você é mais perceptiva do que eu poderia imaginar. – disse ele por fim.
Então havia algo mesmo, algo sobrenatural que cercava Sam. Minha cabeça disparou a pensar que as semelhanças entre Sam e Matt, talvez não passassem da beleza e os olhos. Eu olhei espantada para Matt e ele pareceu entender a que ponto meu raciocínio chegara. Ele se afastou lentamente. Só de imaginar de ficar longe dele, eu me sentia desprotegida e agoniada. Puxei sua mão para perto de mim por reflexo e ele se aproximou novamente, para meu alivio.
- Então você, é... – deixei o resto da frase ficar subentendido.
Ele entendeu imediatamente, e me respondeu sorrindo.
- Não, eu sou... Diferente.
Por um lado fiquei tranqüila, por outro, um arrepio passou por todo meu corpo, me fazendo estremecer. Matt deixou entendido que a minha tese era verdadeira. Então, todas aquelas vezes, que Sam parecia ler o que eu pensara, ele de fato era isso que estava fazendo. Isso não podia ser verdade, era uma coisa impossível e fora do normal. A cada batida do ponteiro, esse dia se tornava mais estranho. Eu tinha toda certeza que havia mais um segredo a ser revelado. Algo que tanto Matt e Sam estavam tentando esconder de mim.
- Posso fazer outra pergunta? – perguntei arriscando.
- Como eu disse Anne, sempre. – o sorriso perfeito mais uma vez no seu rosto.
Fui diretamente ao ponto, sem rodeios. Estava tão certa, que afirmei ao invés de perguntar.
- Eu sei que tem mais coisa que vocês deveriam me contar. Conte.
Ele estava sem saída e percebeu que eu não iria desistir até obter a resposta que eu queria.
- Anne, eu não posso. – disse ele pegando minha mão. Sua pele sempre gélida me fez arrepiar.
- Eu quero, ou melhor, eu preciso saber. Por favor, Matt. – olhei em seus olhos.
Ele apertou de leve a minha mão, me olhando com tristeza.

terça-feira, 10 de março de 2009

Capitulo Nove - Revelado

Ele respirou fundo, me olhando intensamente. Seu rosto era muito parecido com o de Matt, as feições eram perfeitas e bem delineadas. O anjo sentado na minha frente, assim como Matt, tinha os olhos mais lindos que eu já vira.
- Por que anjos? - ele me perguntou, rompendo o silencio que se sucedia desde sua ultima frase.
Levei um tempo para engolir sua pergunta, nunca havia dito a ninguém do meu modo de ver ele e Matt. Como ele sabia que eu os chamava assim? Como ela sabia outras coisas que eu tinha simplesmente pensado?
- Tudo vai ter sua resposta Anne. Acho interessante o fato de você nos denominar dessa forma. – ele riu sem humor.
Fiquei esperando, as respostas prometidas por ele. Ele se ajeitou na almofada onde estava sentado e pegou minha mão e a afagou, ele fazia círculos com os dedos na minha palma; até que ele começou a falar.
- “Tudo começou a um bom tempo atrás, onde que um amor entre um casal, colocaria tradições e decisões de séculos atrás em jogo. O menino, filho de um casal de governantes que seguia essas leis tão firmemente que chegavam a se tornar lunáticos. Já a menina, criada da mais fina forma, era a perfeita princesa, era linda e mais bonita de todos os tempos.”
Ele engoliu seco ao falar essas palavras. Permaneci atenta esperando o resto da historia.
- O destino fez sua parte, e em um verão, os dois se encontraram pela primeira vez. Ambos eram adolescentes. Foi amor a primeira vista, mas eles sabiam que nada poderia mudar a visão de seus pais, sobre a raça do outro. Mesmo dessa forma, eles desafiaram tudo que fora ensinados a eles, e se encontravam escondidos de todos. Nenhuma das duas famílias sabia de seu amor.
“Os dois estavam apaixonados e faziam loucuras um para o outro. Ele não era filho único, seu irmão, copia perfeita de pensamentos de seu pai, descobriu que ele se encontrava as escondidas com a filha de seus inimigos. O irmão indignado com a ‘traição’, resolveu contar tudo para seus pais, e assim fez. Luna e Pietro foram encontrados juntos, numa caverna que ficava na divisa entre os dois reinos. Foram pegos em flagra pelo pai dele. Eles discutirão feio, e naquela noite, Pietro decidiu abdicar do trono que em pouco tempo seria dele. Juntou suas coisas mais importantes e saiu da casa de seus pais.”
Sam ainda olhava para minha mão, percebi que ele evitava olhar diretamente em meus olhos. A história pelo que percebi por suas feições não teria um final feliz, tentei entender aonde ele queria chegar me contando essa historia.
- Logo que os pais de Luna descobriram seu caso também, perguntaram para a filha, se era isso mesmo que ela queria, surpreendendo-a. Luna respondeu que Pietro era tudo que ela queria que ele era sua alma gêmea. Diferente da família dele, os pais dela deixaram sua filha tomar as próprias decisões. Luna largou tudo que tinha e fugiu com Pietro. Por anos eles conseguiram viver clandestinamente, em um lugar desconhecido. Luna realizou seu sonho e teve um filho, uma criança que misturava a grandiosa beleza do casal. Eles finalmente estavam felizes, tinham pouco, mas o que tinham era necessário para a felicidade. Três anos após Luna ter tido seu primeiro filho, veio a noticia que ela esperava outro bebê, só que desta vez era uma menina. Tudo estava ocorrendo bem, a felicidade reinava na família. O bebe, era muito esperado e mesmo antes de nascer, tinha todo amor que poderia ter.
“A menina nasceu, perfeita, mesmo ainda recém nascida, dava para perceber o quanto se assemelhava a sua mãe. Uma semana após seu nascimento, é anunciada a morte do pai de Pietro, e seu irmão assume o trono. Pietro ficou abalado com a morte de seu pai, mesmo depois das brigas que eles tiveram.”
Sam, enfim, levantou sua cabeça e me olhou nos olhos. Eles estavam cheios de lagrimas e pude notar o quanto era difícil ele me contar tudo isso.
- Dois meses depois do nascimento da menina, Pietro teve que se ausentar, e Luna ficou em casa cuidando das duas crianças. Eles não sabiam que o irmão de Pietro, havia descoberto onde eles estavam. Ele tinha ódio, tanto de Luna, quanto das crianças e decidiu que eles deveriam pagar por tudo. Junto com alguns soldados da guarda, ele invadiu a pequena casa, e levou Luna para o lado de fora. O filho mais velho do casal ficou com a menina em seus braços, enquanto ouvia os gritos de desespero de sua mãe, ela não gritava por socorro, ela só pedia que não fizessem nada de mal para os seus filhos. Os gritos se cessaram e o tio das crianças adentrou no cômodo onde as crianças estavam. Seu olho brilhava de ódio, mas algo aconteceu e ele nada de mal fez fisicamente as crianças. Ele levou a bebe para longe e não se ouviu mais falar dela, o menino voltou a morar com seus avôs maternos. O pai nunca mais foi visto, muitos dizem que seu irmão, deu o mesmo fim de Luna para ele.
“Luna foi enterrada em uma ilha, seu lugar favorito em todo mundo. Ela costumava ir lá quando era criança, do lado do seu tumulo, se encontra uma roseira, e do lado uma placa com os dizeres: ‘Aqui descansa minha estrela’”
Sam terminou a historia e uma lagrima brotou pelo canto de seu olho, tentei consolá-lo afagando seu rosto. Ele olhou para mim, esperando que fala-se algo. Não tinha entendido o motivo pelo qual ele me contara essa historia triste.
- Você não entende Anne? – ele me olhou esperando alguma reação.
Foi quando tudo se encaixou, o que ele acabou de me contar, era a minha história, nossa historia. Luna e Pietro eram meus pais e, Sam e eu as crianças da historia. Um aperto surgiu em meu peito. O que Sam estava querendo dizer? Que na verdade Luna e Pietro eram meus pais? Ele estava louco. Levantei rapidamente, e antes mesmo de acabar de fazer o movimento, ele já estava na minha frente bloqueando minha passagem.
- Você está louco, por favor, me deixa sair daqui. – pedi empurrando seu corpo em vão.
- Não Anne, não há nenhum engano aqui. Por favor, escute o que eu ainda tenho a falar.
Consegui sair de seus braços e andei em direção a porta, já girando a maçaneta, olhei para trás, para saber onde ele se encontrava. Ele ficou parado, no mesmo lugar onde eu conseguira desviar de seus braços, em seus olhos constavam lagrimas e seu rosto que a pouco era perfeito, estava contorcido em dor. Aquela imagem me deixou chocada, ele estava realmente muito abalado. Dei um passo em direção a ele, não podia deixá-lo ali, naquelas condições, mesmo sabendo que tudo que estava acontecendo, não passava de um mal entendido. Eu estava caminhando em sua direção, quando a dor insuportável na minha cabeça voltou. Minha mente estava queimando, mas dessa vez, via apenas flashbacks.
Via duas crianças em um chão encolhidas de medo, uma mulher que gritava por eles, um homem que corria sem parar e eu mesma, me vi pela perspectiva de outra pessoa. As imagens lentamente foram fugindo de minha mente, e pude ver o rosto preocupado de Sam ao meu lado. Ele me sacudia e gritava:
- Anne, por favor, fala comigo, olha pra mim.
- Estou bem – gemi de dor.
Senti meu corpo flutuar, e reparei que mais uma vez, Sam me carregara em seus braços. Ele me deitou no sofá perto da lareira, e afagou meu rosto. Abri meus olhos e ele sorriu. Ele era tão carinhoso comigo, me tratava como sua verdadeira irmã, ele teria que entender que tudo estava errado, eu não era sua verdadeira irmã. Mas as imagens que eu vi, foram tão estranhas, pareciam ser da historia que ele acabara de me contar.
- Anne, como consegue? – ele me olhava intrigado.
- Consigo o que? – a dor estava se amenizando, eu esfregava minha testa em movimentos sincronizados.
- Deixa pra lá Anne. Deixe por favor, eu terminar o que tenho a te dizer?
- Pode continuar Sam, mas ainda acho que isso não passou de um mal entendido. – disse me ajeitando no sofá, de uma forma onde pudesse olhar em seus olhos.
Ele sentou ao meu lado, e mais uma vez pegou minha mão.
- Quero que você entenda, que toda aquela perseguição, não terminou. Ainda corremos perigo.
Ele me olhou seriamente, e antes que eu pudesse me pronunciar, ele continuou.
- Anne, eu já imaginava que você não entenderia, acharia que tudo não se passava de um engano. Mas não é Anne. Você, você... É tão parecida com nossa mãe. - ele me olhou tão profundamente, e mais uma vez, lagrimas escorreram pelo canto de seu olho.
- Sam, eu sinto muito, é serio. – disse me levantando – é um engano tudo isso, desculpe.
Ele soltou minha mão com tristeza.
- Anne, se ele te fizer algum mal, nunca poderei me perdoar, você é tudo que eu tenho. Por favor, me entenda.
Eu não olhei em seus olhos, tive medo de mais uma vez, continuar ali pela pena que sentia dele. Mesmo sem meu casaco, girei a maçaneta e sai porta a fora. O vento frio mais uma vez veio em choque diretamente em mim, me enrolei o máximo possível na manta que Sam me dera, e corri em direção a minha casa.
Eu já estava sem fôlego quando cheguei a minha casa, lembrei então que havia deixado minha mochila, na casa de Sam. A sorte era que minha mãe, sempre deixava uma chave extra, embaixo do vaso da pequena escada na entrada.
Quando finalmente estava em casa, eu liguei imediatamente o aquecedor, eu tremia involuntariamente de tanto frio. Troquei de roupa e dei uma secada rápida no meu cabelo. Resolvi descer para ver o que tinha na geladeira, minha mãe deveria ter deixado pronta algumas refeições para o dia que ela se ausentaria.
Algo me fez recuar pela escada, minha sala não estava vazia, um grupo de homens encapuzados estavam me esperando. O pesadelo retornou a minha cabeça. Tentei me mover o mais rápido que pude, entrei em meu quarto e tranquei a porta assustada. Não demorou nem meio minuto, uma voz aveludada me ameaçou pelo outro lado.
- Anne, não tem como fugir, uma porta não é empecilho para mim, saia por bem, ou eu te arranco desse quarto por mal.
Eu não tinha o que fazer, fui até a janela para ver se um salto daquela altura não iria ter grandes conseqüências, percebi que não sairia dessa sem pelo menos um osso quebrado. Eu estava presa, e a única solução era fazer o que ele pedia. Me lembrei que Matt, havia me dado um telefone caso eu estivesse com problemas. É aquilo me pareceu grandes problemas. Revistei meu bolso a procura do papel que ele me dera, e encontrei. O homem do outro lado de minha porta batia em movimentos sincronizados, imitando o ‘ tic-tac’ dos relógios. Disquei o numero em meu celular, e reparei que minha mão estava tremula, o celular chamou duas vezes até que uma voz que reconheci imediatamente como a de Matt, atendeu o telefonema. Se eu não estivesse na situação que eu estava, estaria feliz por ouvir sua voz.
- Matt, socorro. – meu timbre de voz estava alto o suficiente para que do outro lado da porta, o homem escutasse.
- Anne? – respondeu Matt do outro lado.
Mas um estrondo fez com que eu deixa-se o celular cair. A minha porta havia sido arrombada, e não sei de que forma, sido jogada para perto de minha cama, do outro lado do quarto. Os homens encapuzados adentraram em meu quarto, e vieram em direção a mim. Eu estava sem saída, não tinha para onde correr, bolei rapidamente um plano de correr até meu banheiro, mas da mesma maneira que eles arrombaram a porta de meu quarto, poderiam fazer com a de meu banheiro. Eu não tive saída, tentei gritar socorro, mas antes que pudesse pronunciar, o homem que há tanto tempo tentei esquecer, tampou minha boca, e sussurrou em meus ouvidos.
- Não vai adiantar Anne.
O pânico me tomou por inteira, sabia que dessa vez eu não tinha escapatória. Ele me puxou até o andar de baixo, e me sentou no sofá. Os homens encapuzados nos acompanharam até a sala, e permaneceram em silencio. Mais uma vez, as palavras pareciam sumir de minha boca. Eu olhava assustada, esperando uma reação dele. Até que ele começou a falar.
- Pequena Anne, infelizmente você soube a verdade pela versão mais errada da historia. Você não entende o quanto foi difícil fazer tudo que fiz.
Minha mente trabalhava a mil por hora, e liguei um fato ao outro. O homem que estava na minha frente, seria então irmão de Pietro, ele também acreditava que eu era sua sobrinha. Tudo o que havia acontecido naquele verão, incluindo a morte brutal de minha avó, fora decorrente de um terrível engano. Minha voz saiu mais aguda e desesperada possível.
- Vocês têm que entender, eu não sou essa Anne que vocês pensam que sou me deixem em paz. Procurem a certa, me deixa ir embora, por favor.
- Não Anne, não temos como nos confundir. Sabemos que é você, o seu cheiro não nos engana. Ainda tenho muito que te contar. – ele afagou meu rosto e antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, um estrondo tirou a atenção de todos de mim. Todos se voltaram para a cozinha, ainda assustada eu olhei esperando que algum milagre tivesse acontecido.
E aconteceu, Matt estava parado a poucos metros de mim, junto com Sam, e mais dois homens e uma mulher. Os cinco estavam em posição de ataque, e seus dentes amostra. Um arrepio passou por minha espinha, naquele momento, eles não eram meus anjos, não havia nada de angelical neles. O olhar de Matt caiu sobre mim, e eu supliquei mentalmente que ele me tirasse daquele lugar.
O homem que eu tanto temia me puxou para um abraço esmagador, e virou meu rosto para os cinco. Sam imediatamente saiu da posição que estava e foi logo levantando as mãos. Os outros quatro o imitaram.
- Larga ela. Agora. – Sam gritou, olhando desesperado para mim.
- Nem pensar, Sam. Seus pais nunca te ensinaram a respeitar os mais velhos.
Sam olhou com ódio em direção a ele, e veio em nossa direção. Tudo aconteceu muito rápido, eu fui jogada em direção a mesa da sala, e bati minha nuca na mesma. Fiquei um pouco tonta. Meu cotovelo estava doendo e estava arranhado. Eu olhei para briga que se sucedia na minha sala de estar.
Sam e o homem que se dizia meu tio estavam mais perto de mim, e eles se moviam rápido demais para que meus olhos conseguissem acompanhar, o mesmo acontecia com os demais que estavam ali. O homem mais alto e loiro, que estava acompanhando Sam e Matt, estava lutando com dois encapuzados ao mesmo tempo e pelo que me parecia, ainda estava em vantagem. Fechei meus olhos esperando acordar de um pesadelo. Ao invés disso, um barulho de sirene me fez abrir os olhos. Provavelmente, algum vizinho havia achado estranha toda aquela movimentação e comunicou a policia.
As brigas se cessaram quase que imediatamente, e o homem que se dizia meu tio, veio em minha direção. Não sei como aconteceu, mas antes que eu pudesse piscar os olhos, Matt estava na minha frente, me protegendo. Um rosnado saiu de seu peito e o outro homem recuou, quando voltei a olhar para a sala, somente Sam e os outros que o acompanhavam estavam presentes. Matt se virou para mim e pude sentir sua respiração. Ele me beijou na testa e me olhou esperando alguma reação. Sorri em saber que ele estaria de volta, me senti mais uma vez protegida. Ele me pegou em seus braços e eu enterrei minha cabeça em seu pescoço. Senti que ele se movimentou por causa do vento que movia os meus cabelos, o barulho da sirene se tornou distante, mas eu não tinha coragem de olhar em volta, de ver o que estava acontecendo.
Depois de uns minutos, senti que Matt havia parado. Ele me soltou delicadamente, e pude olhar em volta. Estávamos parados em um lugar deserto, cercado por arvores. Uma casa se destacava por sua imensidão, vários carros estavam parados em volta da casa. Sam e os outros três, estavam perto de nós, eu tinha muitas perguntas a fazer para Matt, mas poderia esperar. Sam me olhava, esperando talvez, que eu me pronunciasse, ele havia me avisado do perigo e eu não tinha o ouvido. Mesmo achando que tudo o que estava acontecendo fosse uma grande loucura, algo dentro de mim começava a se manifestar, e se fosse verdade? Até que ponto, a impressão de que conhecia Sam estava ligado a toda essa historia?
- Vamos Anne, está frio aqui fora. – Matt pegara minha mão e andava em direção a casa.
Acompanhei Matt e os outros fizeram o mesmo. Reparei que a mulher que estava junto a nós, pegou na mão do homem loiro alto. Eles passaram a nossa frente e quando eles entraram pude ver o interior do casarão, ao contrario do exterior rústico, o interior era luxuoso e moderno, com varias TVs e eletrônicos. Meu queixo caiu ao ver a quantidade de gente que estava dentro da casa, dezenas de homens e mulheres se localizavam no hall. No momento em que passei na porta, todo barulho se cessou, o olhar de todos vieram em minha direção. Notei que todos tinham a mesma feição angelical de Matt e Sam, e todos tinham a mesma cor dos olhos. Achei estranha toda essa semelhança. Os quatro subiram as escadas e eu e Matt os acompanhamos. No andar de cima, havia um corredor enorme, com varias portas. Fiquei olhando tudo, cada detalhe, quando a mulher que nos acompanhava, falou.
- Matt, deixa que eu dê a ela outra roupa, ela deve estar com frio. – ela sorriu pra mim. Ela era de longe, a mulher mais linda que eu já havia visto. Seus longos cabelos castanhos desciam em cachos até a cintura. Seu rosto tinha feições angulosas e perfeitas.
Matt segurou mais forte minha mão. A dor em minha nuca aumentou e eu gemi de dor. Minhas pernas ficaram bambas e eu estava caindo quando Sam me segurou pela cintura. Ele me carregou até o final do corredor, ele abriu uma das varias portas e foi me carregando para dentro do cômodo. Os outros vieram logo atrás. O quarto era grande e luxuoso, Sam me deitou na cama e puxou meus cabelos para cima. Senti minha nuca arder.
- Chama o Michael, agora. – disse Sam a alguém que eu não pude ver.
Matt se sentou na minha frente, e segurou uma das minhas mãos.
- Anne você está bem? – disse ele preocupado.
Minha nuca ardia insuportavelmente, mas não queria preocupá-lo.
- Estou bem Matt, só arde um pouco.
- Ela está mentindo. – disse Sam.
Mesmo ainda tonta, dei um jeito e me sentei na cama, olhei seriamente para Sam.
- Você vai falar como faz isso? Ou vai continuar me fazendo de idiota? – disse brava, para Sam.
Ele sacudiu a cabeça. Em um movimento rápido, ele se levantou e andou em direção a porta. Ele olhou para mim, amargurado antes de se retirar.
- Não liga pra ele Anne, ele anda meio estressado ultimamente.
Encostei minha cabeça na cabeceira da cama, minha nuca ainda ardia, mas eu tinha tantas coisas a perguntar a Matt.
Antes mesmo que eu pudesse começar meu questionário a Matt, um homem entrou no quarto acompanhado de Sam e a outra mulher que estivera na minha casa. Ele era igualmente bonito como todos que reparei estarem naquela casa. Seus cabelos eram loiro mel e seus olhos eram do mesmo tom que Matt e Sam. Ele olhou para mim da mesma forma que Sam olhava.
- Anne. – um sorriso abriu em seu rosto ao pronunciar meu nome – soube que você se feriu não se preocupe já chamamos um medico que confiamos.
Sua voz me passava confiança e percebi que ele era uma pessoa importante. Sua voz era imponente e ao mesmo tempo amável. Me senti um pouco desconfortável , queria saber o que era aquele lugar. Um clube pra jovens ricos, ou algo do tipo? Minha mente voou eu pensar o que minha mãe, a quilômetros daqui, falaria quando visse toda aquela confusão em nossa casa.
Perdi minha linha de raciocínio ao ouvir Sam bufar altamente perto de mim. Ele olhava pra mim mais uma vez. O encarei sem desviar o olhar. Michael por sua vez, deu uma ordem que fez Sam desviar seus olhos de mim.
- Saiam todos, quero somente Sam e eu aqui. – imediatamente, como crianças respondendo as ordens de um adulto, todos saíram do quarto. Menos Matt, que contrariou suas ordens.
Michael olhou severamente para Matt, antes que ele pudesse reclamar, Matt começou a falar.
- Não saio de perto dela nem que me tirem a força. Já te disse isso, espero que dessa vez me entenda.
Sam e Michael olharam de cara feia para Matt, porém assentiram. Sam se aproximou da cama e sentou perto de mim. Michael fez o mesmo. Matt olhou para ele, esperando que começasse.